"No próprio dia da batalha, as verdades podem ser pinçadas em toda a sua nudez, perguntando apenas;
porém, na manhã seguinte, elas já terão começado a trajar seus uniformes."

(Sir Ian Hamilton)



quinta-feira, 15 de fevereiro de 2018

PPSh-41: SÍMBOLO DA VITÓRIA SOVIÉTICA NA 2ª GUERRA MUNDIAL

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O típico monumento ao soldado soviético apresenta capacete SSh-40, capa e uma sólida submetralhadora com um disco pesado no carregador e peculiar invólucro de janelas ovais ao redor do cano. A PPSh-41, ou pistola-metralhadora Shpagin modelo 1941, teve 6 milhões de exemplares fabricados durante a Segunda Guerra Mundial, tornando-se um dos símbolos mais reconhecíveis desse terrível episódio histórico.


A PPSh foi o herdeira da custosa submetralhadora Degtyarev PPD-34/40. Dela recebeu a aparência e o pesado carregador em formato de tambor para 71 munições, copiado da submetralhadora finlandesa Suomi, após a Guerra de Inverno nos anos 1939 e 1940. Pelas suas características, o correto funcionamento da arma dependia do uso individualizado dos carregadores em cada uma das submetralhadoras.

Ao contrário de sua antecessora, a PPSh era também muito mais simples e barata. Seus elementos estruturais fresados (parafusos) foram substituídos por partes prensadas, e seu corpo foi reduzido praticamente ao cano e ao ferrolho, que eram bem resistentes. Isso fez dela uma verdadeira máquina de combate, já que a industrialização no tempo de guerra exigia economia de materiais e tecnologia simples, porém confiável.

Outra particularidade dessa arma era a poderosa munição 7,62 × 25, a mesma da pistola Tokarev TT. O conjunto imprimia ao projétil uma alta velocidade e a taxa de tiro era incrível – de 900 a 1000 disparos por minuto.

O peso elevado, apontado muitas vezes como uma desvantagem, era, contudo, bom para o atirador. A PPSh se comportava com mais estabilidade durante as rajadas do que outras submetralhadoras, como a alemã MP-40. O freio de boca localizado na extremidade do cano proporcionava ainda um menor recuo ao refletir o fluxo dos gases para os lados.


Vassoura de trincheira

Todos esses elementos faziam da PPSh uma arma eficaz e temível, capaz de proporcionar alto poder de disparo até mesmo a 200 metros de distância. A alemã MP-40, por exemplo, era considerada eficaz em distâncias não superiores a 150 metros. Além disso, a PPSh podia massacrar o inimigo com a voracidade de um grupo de homens armados. O carregador com 71 munições era responsável pelo fluxo constante de fogo concentrado.

Soldado soviético armado com uma PPSh-41 capturando um alemão em Berlim

Em pouco tempo, a PPSh ganhou o apelido de “vassoura de trincheira”, mostrando-se extremamente eficaz em combates a curta distância em ambientes fechados, como trincheiras e áreas urbanas. Não é por acaso que os grupos de ataque que combatiam em zonas urbanas geralmente portavam essas submetralhadoras.

Mas a PPSh não foi reconhecida como a melhor submetralhadora da Segunda Guerra Mundial. Os especialistas concordam que o melhor modelo foi outra arma soviética – a PPS, uma simples submetralhadora, concebida por Aleksêi Surdeie, que teve cerca de meio milhão de exemplares produzidos.

Diz o ditado que “o ótimo é inimigo do bom”. A PPS somente entrou em serviço operacional em 1943, participando da libertação do cerco de Leningrado. Sua distribuição a outras unidades do fronte se tornou complicada (no momento da libertação havia sido produzidas apenas 46.000), e o Exército Soviético necessitava, desde os primeiros dias da guerra, de enormes quantidades.

A submetralhadora que preencheu a lacuna foi justamente a PPSh-41, que, portanto, mereceu seu lugar nos inúmeros monumentos aos soldados soviéticos.


Ficha Técnica



Tipo: Submetralhadora
Calibre: 7.62mm
Cadência de tiro: 900 disparos p/min
Alcance útil: 100m
Peso da arma: 3.64Kg
Velocidade do projetil: 450 m/s
Carregador: 35/71 cartuchos
Munição: 7,62 x 25 Tokarev

Fonte: defendingrussia

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quarta-feira, 7 de fevereiro de 2018

IMAGEM DO DIA - 7/2/2018

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Highlanders escoceses carregando em combate durante a Batalha de Pestonpans, no contexto da Rebelião Jacobita de 1745



terça-feira, 6 de fevereiro de 2018

UM POLICIAL BRASILEIRO QUE TOMBOU NA GRANDE GUERRA

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Por Fernando M. Vasconcelos

No dia 5 de outubro a Banda de Clarins "Edmundo Wright" do Regimento de Polícia Montada "9 de julho" comemorou seu 122º aniversário. E, como esse ano marca o centenário da entrada do Brasil na Primeira Guerra Mundial, trago aos senhores um texto alusivo ao Coronel Edmundo Wright, criador e patrono do centenário conjunto musical do Regimento.

Ao longo da história do Regimento encontramos vários personagens que engrandeceram, não somente a Cavalaria Paulista, mas toda a Polícia Militar do Estado de São Paulo, herdeira da Força Pública de São Paulo. Uma das mais emblemáticas é a figura do coronel Edmundo Wright, oficial do Exército Brasileiro comissionado no Regimento de Cavalaria da Força Pública na ultima década do século XIX, lembrando que nesse período os oficiais Intermediários e Superiores eram todos oriundos do EB. Isso só viria a mudar em 1906 com a vinda da Missão Militar Francesa.

Nascido em Santos, no ano de 1867, filho do inglês Joseph Richard Wright e da brasileira Guilhermina Vieira de Carvalho Wright, chegou à Força Pública de São Paulo em 28 de maio de 1894. Após frequentar por dois anos a Escola Militar do Rio Grande do Sul, e ser enviado ao 4º Batalhão de Infantaria da Força, que estava em Operação de Guerra na Vila de Caraguatatuba, devido a Revolta da Armada, ainda naquele ano foi transferido para o Corpo de Cavalaria Policial, logo após sua promoção de alferes a major. E nele serviu até o posto de tenente-coronel, exercendo as funções de Fiscal, Subcomandante e Comandante. 

O coronel Edmundo Wright, com o uniforme de comandante do Regimento de Cavalaria da Força Pública de São Paulo

Durante o seu comando, no ano de 1895, o tenente-coronel Edmundo Wright teve a ideia de reunir os clarins de ordens do Regimento e criar uma banda a cavalo. Na tarde de 5 de outubro daquele ano, em uma solenidade às 16h com a presença do Secretário de Justiça, Dr. Mello Peixoto, do comandante geral da Força Pública, coronel Silva Telles e demais oficiais da Instituição, foi inaugurado o conjunto com 29 homens a cavalo, inicialmente chamado de Corpo de Fanfarra, o que posteriormente foi modificado para Banda de Clarins, existente até hoje. E é a única do gênero no Brasil, por ser um conjunto musical que executa musicas a cavalo nas três andaduras: ao passo, ao trote e ao galope.

Em um período conturbado, teve a oportunidade de participar da Revolução Federalista, Revolta da Armada e de várias operações de controle e restabelecimento da ordem pública, como foi o caso da “Questão dos Protocolos”, em 1896, na qual a comunidade Italiana promoveu uma revolta que se espalhou por toda a capital paulista entre os dias 22 e 28 de agosto. Nesse confronto houve a morte de militares do Regimento, causadas por emboscadas dos italianos, e a baixa, devido a um grave ferimento causado por um disparo de arma de fogo, do próprio Edmundo Wright, que no episódio comandava o Regimento.

Após se aposentar, no ano de 1896, Edmundo Wright herdou os negócios da família, uma vez que seu pai era banqueiro e dono de vários empreendimentos no estado. Exerceu também as funções de comandante de unidades reserva da Guarda Nacional e a de Comissário do Estado de São Paulo em Londres, Turim, e, por último, Madri, na Espanha, onde tratava diretamente com o Governo local o comércio entre aqueles países e o Estado de São Paulo.

No ano de 1914 eclodiu a Primeira Grande Guerra, e Edmundo Wright, devido a sua ascendência Inglesa, por parte de pai, se alistou no Exército Britânico, onde foi incorporado, no posto de capitão, ao 6º Batalhão do Regimento da Rainha (The Queen's Royal West Surrey Regiment). Em 1916 foi enviado para o front francês onde participou da Batalha do Somme. Por volta das 4h30min do dia 3 de julho, Edmundo Wright  foi morto, aos 49 anos de idade, por ocasião de um ataque alemão. Seu corpo foi sepultado no Cemitério Britânico no Somme, França.


Com a eclosão da 1ª Guerra Mundial, Edmundo Wright abdicou de sua condição de reservista da Força Pública e alistou-se no Exército Britânico, onde recebeu o posto de capitão.  Durante a ofensiva do Somme, em 1916, perdeu a vida, quando contava 49 anos de idade.

Edmundo foi casado com Maria Luísa Paes de Barros Wright com quem teve os seguintes filhos: Elisa Oliveira de Barros Wright e Carlos Paes de Barros Wright. 

Edmundo Wright foi um exemplo de militar que serviu ao seu país, demonstrando o espírito de abnegação e sacrifício em um período conturbado em que o Brasil mais precisava de pessoas fortes com retidão de conduta para controlar o país e manter a união nacional, pois a Republica ainda engatinhava e passava por um momento de grande instabilidade política e social. 

Mesmo depois de aposentado, alistou-se em um exército estrangeiro para servir e defender aquilo em que acreditava, em uma sociedade que fosse livre, igualitária e justa. Pelos seus valores pessoais, caráter, coragem, bravura, fidelidade aos seus ideais é um homem que merece um lugar de honra na história.

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domingo, 4 de fevereiro de 2018

A DIVIDIDA ESTRUTURA DE COMANDO DA COMPANHIA DAS ÍNDIAS OCIDENTAIS

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Por se tratar de uma companhia comercial paramilitar, com objetivos de colonização e geração de lucros, a Companhia das Índias Ocidentais (WIC) possuía uma cadeia de comando bastante diferente da praticada pelos portugueses. Era dirigida pelo Conselho dos XIX, composto por dezenove diretores, representantes das Câmaras de Amsterdã, Zelândia, Mosa, Holanda do Norte, Groningen e Frísia e um designado pelos Estados Gerais.

Para administrar a Nova Holanda, a WIC estabeleceu o cargo de governador, geralmente ocupado pelo militar com maior posto, e instituiu o Colégio de Conselheiros Políticos, constituído por conselheiros civis nomeados pela Companhia para administrar a nova colônia. Durante o período das invasões holandesas no Brasil, o número de integrantes desse colegiado variou entre três e cinco membros. Apesar de dispor dessa administração colonial, o Conselho dos XIX preocupava-se com possíveis ímpetos de independência ou rebelião entre os comandantes militares da Companhia e, por essa razão, atribuía maiores poderes ao Conselho Político do que ao próprio governador, dividindo hierarquicamente suas forças no Brasil e subordinando o poder militar ao poder político. Essa disposição pode ser exemplificada pela cadeia de comando da WIC por ocasião da invasão a Pernambuco, em 1630. O almirante Lonck, autoridade militar de maior posto, foi nomeado para o governo, mas foi organizado o Conselho Político composto por Johan de Bruyne, Philips Serooskerken e Horatio Calendrini, que limitava sua autoridade do governador e tinha a prerrogativa de aprovar ou não seus atos. Mais tarde, com o retorno do almirante Lonck para a Holanda, assumiu o cargo de governador o coronel Waerdenburch, que, pouco tempo depois, foi também nomeado como membro do Conselho Político. No decurso dos meses de 1630, o Conselho Político recebeu mais dois integrantes: os comissários Johannes van Walbeeck e Servatius Carpentier. Apesar de sua condição de conselheiro, a autoridade de Waerdenburch permaneceu afeta aos assuntos militares e, na prática, os conselheiros civis é quem governavam efetivamente a colônia.


Almirante Hendrick Lonck, comandante da invasão a Pernambuco.

O Coronel Waendemburch sucedeu o Almirante Lonck no governo da Nova Holanda.
 
Com tamanha divisão entre os poderes político e militar, a relação entre os comandantes militares e os conselheiros civis da WIC não poderia ser das mais amistosas, sendo frequentes os atritos entre os dois segmentos. Uma dessas tensões ocorreu em 1633, quando o coronel Waerdenburch, já de retorno à Holanda, ficou furioso ao tomar conhecimento de uma carta escrita pelos conselheiros Mathias van Ceulen e Johann Gijsselingh para a Câmara da Zelândia, reclamando do baixo desempenho das tropas do coronel contra os portugueses na conquista de Pernambuco.


Sede da Companhia das Índias Ocidentais em Amsterdã.

 

No intuito de manter o controle civil sobre as operações militares, um dos conselheiros passou a acompanhar as tropas da WIC nas principais expedições e operações de sítio, para que os comandantes militares não tentassem realizar nenhuma ação sem o prévio consentimento do Conselho Político. Outro conselheiro ficou encarregado de providenciar o abastecimento e o suprimento das tropas. Dessa forma, o Conselho Político exercia o controle sobre as operações e sobre a logística das forças militares da WIC.

Conheça essa e outras histórias lendo
"A guerra do açúcar: as invasões holandesas no Brasil"

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quarta-feira, 31 de janeiro de 2018

PERSONALIDADES DA HISTÓRIA MILITAR - ALMIRANTE JÚLIO DE NORONHA

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* 26/01/1845 – Rio de Janeiro

+ 11/09/1923 – Rio de Janeiro



O Almirante Julio César de Noronha, filho de José Joaquim de Noronha e de Carlota Joaquina de Noronha, nasceu no Rio de Janeiro, em 26 de janeiro de 1845. Foi Aspirante em 1862 e, aos 17 anos, recebeu o galão de Guarda-Marinha. 


Logo como 2º tenente recebeu seu batismo de fogo tomando parte nas Campanhas do Uruguai e Paraguai, onde distinguiu-se, sempre, pela sua excepcional conduta em combate. Ferido no combate de 6 de dezembro de 1864. A bordo da fragata a vapor Amazonas tomou parte na Batalha do Riachuelo, e no forçamento das passagens de Mercedes e Cuevas, destacando-se também nos combates de Paysandu, Riachuelo e Angustura, tendo recebido a Imperial Ordem da Rosa por sua conduta perante o inimigo. 


Em 1873, como capitão-tenente, publicou no Rio de Janeiro o “Compêndio de Hidrografia”.  A Viagem de circunavegação que empreendeu, no comando da Corveta Vital de Oliveira, com a turma de Guardas-Marinha de 1879, tornou-se modelo de instrução.


Em 1896, já como contra-almirante, comandou a divisão composta do encouraçado Aquidabã e dos cruzadores República e Tiradentes, com a qual o Brasil se fez representar na grande Revista Naval passada pelo Presidente Cleveland às esquadras estrangeiras, por ocasião da Exposição Internacional de Chicago.


Entre as numerosas missões desempenhadas em terra pelo Almirante Júlio de Noronha, destacam-se a de Vice-Diretor do Colégio Naval; Vice-Diretor da Escola de Marinha; Capitão dos Portos da Corte e da Província do Rio de Janeiro; membro efetivo do Conselho Naval; Inspetor do Arsenal de Marinha do Rio de Janeiro; Conselheiro de S. Majestade o Imperador; Chefe do Comissariado-Geral da Armada e Chefe de Estado-Maior General da Armada (por duas vezes), onde nunca deixou de revelar suas qualidades de homem estudioso e marinheiro irrepreensível; Diretor da Escola Naval; Consultor do Conselho do Almirantado e Ministro do Supremo Tribunal Militar.  Foi Ministro de Estado dos Negócios da Marinha, entre 15 de Novembro de 1902 a 15 de novembro de 1906.


Sua administração na pasta da Marinha foi fecunda e construtora “numa fase sem dúvida precária da vida nacional, atenuada pela ação previdente do governo de 1899-1902. assim preparatória da ação e do grande sucesso do governo de 1902-1906, cujos passos foram firmes, constantes e decisivos, além de incontestavelmente patrióticos”.


Coube ao Almirante Júlio de Noronha dar à Marinha vida e expressão, depois de um período de lutas amargas e desalentada expectativa.  O depauperamento da Marinha era evidente. Apenas dois guardas-costas, um cruzador protegido e três cruzadores-torpedeiros eram eficientes, no gênero. Dois encouraçados e um cruzador já antiquados, podiam ser utilizados como força de reserva, além do belo navio-escola Benjamim Constant. Os demais não tinham valor militar.


Tomou a si o encargo de elevar o nosso poder naval ao lugar que lhe competira no passado: primaz da América do Sul. E, no dizer do próprio Almirante Júlio de Noronha, “o preparo pata a guerra é o melhor meio de torná-la improvável”.


A verdade é que o Brasil não podia fazer numerosas construções. A ideia, porém, do Almirante Noronha era a de dotar o país de tipos de navios homogêneos por classes, superiores, quanto possível, aos congêneres de outras marinhas.


A reconstituição da Marinha era obra demorada. Pareceu-lhe, todavia, azada a ocasião para a concessão de um credito, triênio de 1904 a 1906. Poder-se-iam encetar algumas construções no começo de 1904. No decurso de um decênio, ponderou o almirante, não nos seria difícil nem altamente gravosa e reconstituição do nosso poder naval, desde que houvesse perseverança na orientação dada.


Reorganizou inicialmente todos os corpos, estabelecimentos e repartições. O ensino naval mereceu de sua parte desveladas atenções. Estabeleceu a seguir, o famoso Programa Naval de 1904, que consistia na aquisição de três encouraçados de 12.500 a 13.000 toneladas de deslocamento; três cruzadores-encouraçados de 9.200 a 9.700 toneladas; seis caça-torpedeiros de 400 toneladas; seis torpedeiras de 150 toneladas; seis torpedeiras de 50 toneladas; três submarinos e um vapor-carvoeiro capaz de carregar 6.000 toneladas de combustível. O tempo necessário à concretização dessa obra seria de seis a oito anos. Em substanciosa exposição do Almirante Noronha, o Chefe do Executivo Federal remeteu o plano ao Poder Legislativo, em duas mensagens seguidas, salientando a necessidade de reconstituição de nosso material flutuante, segundo um programa previamente delineado.


Apresentado o projeto na Câmara dos Deputados pelo ilustre Deputado fluminense Laurindo Pitta, cujo nome figurou mais tarde nos flancos de um barco da Armada, foi o mesmo convertido em lei pelo Decreto n.º 1.296, de 14 de dezembro de 1904.  O Decreto que autorizava o governo a adquirir novos navios foi o clímax da carreira do Almirante Júlio de Noronha.


Ferido, inexoravelmente, pelo destino que fê-lo testemunhar o lamentável soçobro do encouraçado Aquidabã, capitânia da 1ª Divisão Naval, em águas da baía de Jacuacanga. Motivara a catástrofe a explosão pela combustão espontânea da cordite.  Morreram no sinistro quatro almirantes, muitos oficiais, guardas-marinha e pessoal subalterno. Entre os que pereceram figuravam o Guarda-Marinha Mário de Noronha, filho do almirante e um seu primo capitão-de-corveta Luis Henrique de Noronha.


Na explosão do encouraçado Aquidabã, Júlio de Noronha perdeu seu filho e um primo


Com o fim do Governo Rodrigues Alves, foi nomeado Ministro do Supremo Tribunal Militar, onde permaneceu de 1913 a 1919, quando, com 74 anos de idade, dos quais 57 integralmente dedicados à Marinha, sentindo-se cansado para continuar no serviço ativo, requereu dispensa da função.


O Almirante Júlio César de Noronha possuía as seguintes condecorações: Hábito da Imperial Ordem da Rosa, Medalha de Prata de Paissandu e Medalha pela Ação em Riachuelo, 1865; Cavaleiro da Ordem de Cristo, 1866; Cavaleiro da Ordem de S. Bento de Aviz, 1876; Medalha de Mérito, três passadores por atos de bravura na Campanha do Paraguai, 1888 e Medalha Militar de Ouro, 1902. 


Ao longo se sua carreira, comandou o monitor Rio Grande, canhoneiras Araguari e Pedro Afonso, vapor Ipiranga, transporte José Bonifácio, corvetas Belmonte e Vital de Oliveira e os encouraçados Bahia, Lima Barros e Aquidabã.


Após prolongada enfermidade, veio a falecer, no Rio de Janeiro, em 11 de setembro de 1923.

Fonte: Portal Navios de Guerra Brasileiros

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quarta-feira, 24 de janeiro de 2018

CINCO EPISÓDIOS DRAMÁTICOS NA HISTÓRIA DA CRIMEIA

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Confira os eventos que chamaram atenção do mundo para a península muito antes da recente anexação pela Rússia

Por Aleksei Eremenko


1. Peste para exportação

Em 1346, uma ratazana se infiltrou em um navio em Caffa, cidade que hoje se chama Feodóssia. O animal matou mais gente do que o Holocausto e a bomba de Nagasaki juntos, pois foi a partir da Crimeia que a Peste Negra se alastrou pela Europa. Mas não foi ali que começou a peste bubônica.

A pandemia do século 14 teve início no deserto de Gobi, devastando, primeiramente, a Índia e a China. Dali, caravanas a levaram até ao Ocidente, pela Rota da Seda, que na época chegava aos empórios de Gênova, na costa do mar Negro. A propagação da doença talvez tivesse ficado pela região, sem atingir o continente europeu, se não fosse um dos casos mais antigos de uso de arma biológica.

Os mongóis cercaram Caffa e lançaram cadáveres dos vitimados pela peste para dentro da cidade com a ajuda de catapultas. Uma ratazana bastou para que a doença continuasse a se proliferar. Navios genoveses passavam por portos do Mediterrâneo, espalhando cada vez mais a epidemia. Essa lição precoce sobre as sequelas da globalização custou à Europa até 25 milhões de vidas – um terço de sua população naquele tempo.


2. Mito potemkiano

A recente anexação da Crimeia à Rússia não foi a primeira. No século XVIII, Catarina, a Grande, e o príncipe Potemkin, seu mais próximo colaborador, trataram do assunto. As estepes a norte do mar Negro foram incorporadas à Rússia, reprimindo os tártaros que atormentavam o sul do império. Entre os territórios anexados então estava o Canato da Crimeia. O príncipe Potemkin recebeu poderes para valorizar os novos territórios. Em 1787, a imperatriz quis ver pessoalmente como decorriam os trabalhos.

A viagem de Catarina à Crimeia não se compara a nenhuma outra, pelo luxo e envergadura: José II, Sacro Imperador Romano-Germânico e Arquiduque da Áustria, integrou a ilustre comitiva, assim como vários embaixadores estrangeiros que iriam averiguar como a Rússia lidava com as terras novas.

O príncipe Potemkin


Um panfleto editado 25 anos mais tarde denunciou que as aldeias de Potemkin não passavam de fingimento para enganar a imperatriz e seus acompanhantes estrangeiros.  Mas nem era preciso ter qualquer “aldeia potemkiana”. A Táurida, nome dado à Crimeia pelos gregos antigos, bem como a Novorossia, nome coletivo das províncias anexadas, tinham se convertido em terrenos realmente prósperos.


3. Cardigan e Balaclava

Em 25 de outubro de 1854, James Brudenell, 7º conde de Cardigan, encabeçou um ataque conduzido por 600 cavaleiros britânicos contra uma bateria de artilharia em Balaclava, na Crimeia. Ele perdeu quase metade da Brigada Ligeira em um ataque simultaneamente brilhante e suicida. O marechal Pierre Bosquet caraterizou a operação como “esplêndida, mas nada teve a ver com a guerra. Foi simplesmente uma loucura”.

A carga da Brigada Ligeira em Balaclava: "simplesmente uma loucura”


A derrota da Brigada Ligeira foi o maior êxito das tropas russas na guerra da Crimeia de 1854-1856. Os atos de heroico estoicismo do Exército russo não chegaram a garantir uma guerra contra toda a Europa – França, Inglaterra, Sardenha e o Império Otomano ainda eram apoiados pela Áustria e Prússia.

O armamento antiquado e a corrupção no seio da chefia militar agravavam ainda mais a situação. Curiosamente, foi a guerra da Crimeia que trouxe fama ao gorro “balaclava” e ao casaco “cardigan”, inventado pelo próprio conde de Cardigan, porque os ingleses passavam muito frio nos arredores de Sebastopol.


4. Contaminação nazista

Um dos enigmas da Segunda Guerra Mundial continua sendo a razão pela qual a Alemanha nazista utilizou uma única vez as armas químicas, precisamente na Crimeia. A Wehrmacht se apoderou da maior parte da península no outono de 1941, embora as batalhas tenham se prolongado até o verão de 1942. No cerco a Sebastopol, os alemães tiveram que usar o canhão ferroviário “Dora”, o maior de todos na guerra.

A maior parte das unidades do Exército Vermelho recuou da Crimeia para leste, mas mais de 10 mil homens se refugiaram em pedreiras de 40 km de extensão, junto da aldeia de Adjimuskai, e aguentaram ali por mais de meio ano.

Tropas alemãs em ação na Crimeia


Os nazistas não conseguiram entrar nas pedreiras, limitando-se a destruir túneis e poços. Quando acharam que não era suficiente, inundaram a região com substâncias tóxicas. Apenas 48 defensores das pedreiras de Adjimuskai sobreviveram.


5. Expatriação

Em 1941, viviam uns 200 mil tártaros na Crimeia. Três anos mais tarde, oficialmente não havia mais nenhum. Até 1989, a maioria dos tártaros oriundos da Crimeia se instalou no Uzbequistão, mas muitos (registros indicam de 15 a 50%) morreram na viagem ou tentando se adaptar à vida em desertos quase sem água. Foram deportados pelo NKVD (Comissariado do Povo para Assuntos Internos, na sigla russa) a mando dos dirigentes soviéticos. A deportação servia de castigo por colaborarem com nazistas.

Mas ainda hoje se discute a dimensão e a forma de colaboracionismo dos tártaros, e a própria colaboração é questionável. Muitos tártaros trabalharam como guias das unidades antiguerrilha alemãs ou como polícias, sendo até combatentes do grupo das SS Crimeia.

Os tártaros tinham certas razões para não aceitar o poder soviético, que tirou seu gado e plantações de tabaco. Além disso, uma parcela considerável dos intelectuais foi reprimida nos anos 1930, e o Islamismo, bem como outras religiões, não era bem visto pelos bolcheviques. 

Fonte: Gazeta Russa

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sábado, 20 de janeiro de 2018

ENTENDA A ORIGEM DO NOME DAS OPERAÇÕES MILITARES

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Batizar operações militares serve para melhorar o moral das tropas e tem efeito de propaganda, mas por vezes falta inspiração aos autores, como se vê neste título

Por José Francisco Botelho


Em 19 de março de 2011, navios e submarinos americanos cruzaram o mar Mediterrâneo rumo ao litoral da Líbia. Pela primeira vez em mais de uma década, o Exército dos EUA participava de uma ação militar apoiada pela maior parte da população árabe. O objetivo era destruir as forças do ditador Muamar Kadafi, há 40 anos no poder. O regime, sacudido por uma rebelião interna, reagiu com o massacre de civis. A intervenção militar tinha aval da ONU e contava com a adesão de países como a França e o Reino Unido. Apesar da seriedade da situação, risinhos irônicos se espalharam pelo mundo, enquanto os mísseis americanos Tomahawk choviam sobre as Forças Armadas líbias. Por que tanta graça em uma hora tão grave? O motivo era o nome da operação americana: Odissey Dawn, que em português quer dizer "Aurora da Odisseia". A esdrúxula combinação de palavras, com suas vagas e malsucedidas intenções poéticas, foi um prato cheio para humoristas como Jon Stewart: "Isso mais parece título de algum álbum do Yes". (A banda de rock progressivo tem em seu currículo pérolas como Contos dos Oceanos Topográficos e Chaves da Ascensão 1 e 2.)

O ditador foi derrubado, mas é improvável que a Aurora da Odisseia continue despertando, daqui a meio século, sentimentos solenes como os que envolvem a Operação Overlord - codinome para a invasão aliada nas costas da Normandia, o dia D da 2ª Guerra. O contraste entre a força de alguns codinomes e a - digamos - esquisitice de outros levou muita gente a se perguntar: afinal de contas, quem escolhe o nome dessas operações militares e de que forma se dá o "batismo"? Ironias à parte, essa questão aponta para um interessante - e pouco conhecido - capítulo na história militar. 

Dar nomes a operações é um hábito com várias funções - entre elas, levantar o moral dos soldados e fazer boa propaganda. "É natural que os soldados sintam-se mais motivados por participar em uma operação denominada Tempestade no Deserto do que Colinho da Mamãe", diz Cesar Machado Domingues, historiador e editor da Revista Brasileira de História Militar. "Da mesma forma, algumas expressões bem escolhidas podem influenciar favoravelmente a opinião pública." Mas também operações que fracassaram por causa de nomes mal bolados, como você vai ver a seguir.


Letras, números e santos

Lá nos primórdios da humanidade, fazer guerra era relativamente simples. Bastava juntar um bando de correligionários, reunir algumas lanças e correr para o terreno do vizinho. Com o tempo, as coisas se complicaram. Os exércitos se dividiram em cavalaria, infantaria, artilharia etc. Navios - e, bem mais tarde, aviões - foram acrescentados à equação. Os exércitos passaram de algumas centenas a centenas de milhares de soldados. Em meados do século 19, a arte da guerra estava tão cheia de variáveis que foi preciso dar nomes específicos a cada movimentação de tropas. "Nome", no caso, é hipérbole: na época, as operações eram batizadas com letras ou números, como Diretiva 1 e Plano de Operações Y.

Foi a partir da 1ª Guerra que as operações ganharam nomes. Os pioneiros foram os alemães. "Atribuir um nome em código tinha dois objetivos: aumentar a segurança e facilitar o planejamento", afirma o historiador Carlos Daróz, da Universidade do Sul de Santa Catarina. Os codinomes escondiam o verdadeiro objetivo de um plano: em vez de escrever em seus documentos "projetos para a invasão da França na primavera de 1918", os oficiais alemães tascavam uma referência religiosa - São Jorge e São Miguel são dois exemplos pioneiros. "Isso deixaria os inimigos na dúvida caso documentos secretos fossem capturados", explica Daróz. Já naquela época o pessoal se preocupava com o lado marqueteiro da coisa. A Alemanha estava perdendo, e a alusão a seres semidivinos era uma tentativa de dar ânimo aos soldados.

Na 2ª Guerra, dois dos principais protagonistas do conflito, Winston Churchill e Adolf Hitler, tinham obsessão por batizar ações de guerra, de preferência com nomes grandiosos e inesquecíveis. O primeiro-ministro britânico escreveu um manual sobre o assunto. Para Churchill, um bom nome deveria evitar palavras banais, mas sem transparecer excesso de confiança. "Afinal de contas, o mundo é amplo, e o raciocínio inteligente proverá um número ilimitado de nomes sonoros, que nada revelem sobre o caráter da operação, mas que tampouco levem alguém a dizer, algum dia, que seu pobre filho morreu na operação Joaninha ou Peixinho Dourado", escreveu Churchill (que mesmo em documentos não perdia a verve de humorista diletante).


Pecando pelo excesso

Foi Churchill quem transmitiu o entusiasmo pelo tema aos americanos. Em 1943, o Alto Comando dos EUA planejou um bombardeio aos campos de petróleo da Romênia. A ação foi batizada de Espuma de Sabão. Horrorizado com a falta de elegância, Churchill convenceu os aliados a trocar o codinome para Onda Sísmica. Ninguém sabe ao certo quem escolheu o nome da principal operação aliada no Front Ocidental - mas é bem provável que o primeiro-ministro britânico tenha dado pitacos no batismo da Overlord (Senhor Supremo). Nesse caso, o conselho sobre evitar o excesso de confiança foi deixado de lado. Tudo bem, pois a operação foi um sucesso e os aliados venceram.

Hitler foi bem menos feliz em suas escolhas. Aos nomes das operações nazistas, não faltava grandiosidade, mas discrição. Veja o caso do megalomaníaco plano de invasão da União Soviética em 1941, a Operação Barbarossa - referência a Frederico Barbarossa, monarca do século 12 que expandiu o domínio germânico para terras ao leste da Alemanha. O nome era certamente inspirador - mas poderia ter revelado as intenções da Alemanha se caísse em mãos soviéticas. "Não se sabe por que motivo os alemães deram uma indicação tão clara de que seu plano era invadir a URSS", diz Daróz, da Unisul. Hitler deu sorte, pois o nome não vazou (embora a Barbarossa tenha fracassado de qualquer jeito). Com a Operação Leão Marinho, de 1941, foi diferente. Hitler decidiu invadir a Inglaterra por mar e ocupar o país. A ideia era desembarcar 70 mil soldados por meio de veículos anfíbios. Mas o serviço de inteligência britânico interceptou uma mensagem cifrada de rádio que falava no tal "Leão Marinho" - e os oficiais logo sacaram que a ideia de Hitler era atravessar o canal da Mancha.

Após a 2ª Guerra, na Guerra Fria e até os dias de hoje, foram os americanos que mais batizaram operações. Mas todo Exército gosta de dar nome a suas ações. Os franceses, por exemplo, escolhem expressões sonoras e evocativas. Se os americanos foram à Líbia de Aurora da Odisseia, as forças francesas chamaram sua expedição de Harmattan - referência ao vento quente e seco que sopra sobre o Saara em março. Bem, digam o que quiserem sobre os franceses, mas ninguém pode negar que os caras sabem escolher um nome.

Fonte: Aventuras na História

PENSAMENTO MILITAR - MANOBRA



"Pense sempre em cruzar o riacho; e cruzá-lo no ponto mais propício. Cruzar o riacho significa atacar o ponto vulnerável do adversário e colocar-se em posição vantajosa."

 
Miyamoto Musashi, samurai japonês